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Motos, sinistralidade e o negacionismo em segurança rodoviária

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O aumento de sinistralidade rodoviária registado em 2017 tem dado lugar a um elevado número de comentários na comunicação social.
Autor Simone Graciano 
Data 15-01-2018 

O aumento de sinistralidade rodoviária registado em 2017 – traduzido em mais 12,9% de vítimas mortais no local do acidente, no final de outubro em relação ao mesmo período do ano passado – tem dado lugar a um elevado número de comentários na comunicação social, fundamentados, na sua esmagadora maioria, no “achismo”1 e muito pouco no conhecimento científico. Quando muito se fala e escreve nesta base, grande é o risco, já diz a sabedoria popular, de pouco se acertar. 


Uma das poucas peças jornalísticas2  que procurou identificar, com base em dados objetivos e credíveis, as circunstâncias desse aumento de sinistralidade, que não as suas causas, foi alvo de um processo de descredibilização dos números apresentados por parte de alguém que, sendo deputado3 , deveria ter um cuidado acrescido na apresentação dos seus argumentos. Com efeito, não basta baralhar e tentar confundir os leitores para se demonstrar o indemonstrável. Quando esse é o caminho seguido, a probabilidade de os autores caírem no negacionismo4  é grande. O que é pena, pois desta forma é muito difícil, para não dizer impossível, discutir de forma fundamentada os problemas.


Seja qual for a forma de olhar para os números, há um facto indesmentível: os veículos de duas rodas a motor (ciclomotores e motociclos), abreviadamente 2RM, são os que apresentam o maior risco de lesões para os seus ocupantes, medido quer pelo número de mortos, quer pelo de feridos graves em relação ao parque existente5. Estes resultados são válidos tanto para as vítimas no local do acidente, como quando é feita a contabilização nos 30 dias subsequentes ao acidente, com um particular relevo nos motociclos.


Cabe notar que 2016 foi um ano em que a sinistralidade das 2RM com vítimas mortais foi, do ponto de vista estatístico, anormalmente baixa, considerando o padrão verificado na maioria dos anos antecedentes. Mas, mesmo assim, o risco de morrer num motociclo, nesse ano, era 4,5 vezes superior a que tal acontecesse num automóvel ligeiro (20,9/4,5 mortos por 100.000 veículos segurados).


A este maior risco acresce o facto de os veículos de 2RM terem, ao invés dos automóveis ligeiros, uma utilização marcadamente sazonal, ou seja, por esse facto apresentam uma (muito) menor exposição ao risco. Conforme se verifica no gráfico, apenas menos de metade dos veículos de duas rodas a motor circula regularmente durante a totalidade do ano.


Quando comparado com o que se passa noutros países europeus, o indicador de risco (vítimas mortais/parque segurado) também é extremamente desfavorável para Portugal, conforme demonstrado no Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária (PENSE 2020)  e que aqui se reproduz. São os motociclos que, mais uma vez, se distinguem nessa comparação.


Quando comparado com o que se passa noutros países europeus, o indicador de risco (vítimas mortais/parque segurado) também é extremamente desfavorável para Portugal, conforme demonstrado no Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária (PENSE 2020)6  e que aqui se reproduz. São os motociclos que, mais uma vez, se distinguem nessa comparação.

 

(1) Ramo da “ciência” construído sobre o palpite, formulado através do “acho que…”, com base em opiniões, intuições e folclore e que tem como instrumento o “achómetro”. 

(2) Jornal de Notícias, 27 de outubro de 2017.

(3)http://www.andardemoto.pt/motonews/34294noticiassobreasinistralidademigueltiagodenunciadadosmanipulados/ 

https://www.facebook.com/notes/miguel-tiago/acidentes-de-moto-matam-cada-vez-mais/1683770468364499/ 

(4) Ação de negar ou não reconhecer como verdadeiro um facto ou um conceito que pode ser verificado empiricamente 

(ex.: negacionismo científico, negacionismo histórico)."negacionismo", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://priberam.pt/dlpo/negacionismo  [consultado em 16-11-2017].

(5) Com base nos veículos segurados, o indicador mais fiável disponível em Portugal.  

(6) (Tabela 8 da pág. 3073 na 1.ª série do Diário da República n.º 116 de 19 de junho de 2017, onde foi publicada a Resolução do Conselho de Ministros que aprovou este plano estratégico).


Texto de análise publicado na revista institucional da ANCIA, edição Outono de 2017