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Entrevista a Elisabete Jacinto

Faz sentido tratar das nossas viaturas com razoabilidade e inteligência

Entrevistas
Elisabete Jacinto foi a oradora convidada das Jornadas Técnicas ANCIA 2017. O tema central deste evento profissional, as viaturas híbridas e elétricas, foi também assunto da entrevista.
Autor Simone Graciano 
Data 15-01-2018 
Entrevista a Elisabete Jacinto
 

Qual a sua opinião sobre a evolução dos veículos elétricos e híbridos?

Acho que faz todo o sentido. Vivemos num planeta cada vez mais intoxicado por gases e poluição. Precisamos de um planeta mais saudável e acho que aderirmos a novas formas de energia menos poluentes e mais saudáveis faz todo o sentido e são muito bem-vindas.


As políticas de incentivos para a utilização desses veículos poderão acelerar a mudança?

Penso que sim. As pessoas estão despertas para o tema, estão recetivas. No entanto, os novos veículos são caros e isso é sempre um bloqueio. 
Se houver incentivos, as pessoas vão aderir muito mais rapidamente, até porque há uns anos que estão na expetativa do carro elétrico, do carro com uma energia mais limpa. Acho mesmo que estamos todos prontos a aderir. 
Mas, de facto, os preços são proibitivos e se houver incentivos para se tornarem mais acessíveis acho que vai ser uma mudança muito rápida.
 
“A vantagem das viaturas elétricas está no facto de ser uma energia limpa, uma energia mais
saudável para todos nós e isso é o ponto mais importante.”


A mobilidade elétrica no desporto automóvel já está em curso?

Já começou. No África Race já tivemos um carro elétrico e uma moto elétrica. Ainda não provaram ser capazes de fazer todas aquelas etapas com a destreza necessária, mas a verdade é que já existem experiências e estou convencida que daqui a pouco tempo vamos ter veículos a correr já com qualidade e com capacidade para suportar todas as adversidades que  temos que enfrentar nos ralies.


Quais são as vantagens e desvantagens dos carros híbridos e elétricos?

A vantagem está no facto de ser uma energia limpa, uma energia mais saudável para todos nós e isso é o ponto mais importante. 
Atualmente, o grande inconveniente está no facto de não termos ainda uma fiabilidade garantida, o facto de a autonomia não ser ainda bem aquela que é necessário e de estarmos numa fase de evolução, com muitos aspetos que não estão 100% comprovados. 
Ainda há muito risco associado ao carro elétrico. Portanto, há que evoluir um bocadinho mais a tecnologia e garantir a segurança, no sentido de que o carro elétrico, em competição ou a trabalhar, não tenha surpresas desagradáveis. 
Ainda estamos numa fase para confirmar uma série de aspetos em termos tecnológicos e estou convencida que não faltará muito para que as coisas comecem a correr de uma forma bastante rápida e se consiga atingir aquele nível de qualidade que faz falta.


As inspeções técnicas são importantes para a segurança rodoviária?

Sem dúvida. Acho que a existência deste mecanismo de inspeção do automóvel faz com que as pessoas sejam obrigadas a pensar nele e acabemos por ter muito mais medidas protetoras em relação à nossa própria segurança. 
Não é porque nos queiramos “baldar”, mas a verdade é que temos tanta coisa a controlar o nosso dia-a-dia que há sempre qualquer coisa que fica para trás. E é normal que seja o automóvel, porque o que queremos é chegar ao emprego rápido.


Começou nas motos. O que acha da obrigatoriedade da inspeção às motos ser apenas para as que têm mais de 250cc?

Se calhar faria sentido que a inspeção fosse feita a todos os veículos de duas rodas, para que todos tivessem qualidade. 
É um facto que as motos que têm menos cilindrada andam mais devagar e, portanto, os riscos são menores. Contudo, não sei bem qual foi a base dessa opção. Provavelmente uma das razões foi facilitar um bocadinho numa fase inicial, não obrigando as motos de baixa cilindragem. 
Mas acho que faz sentido as motos serem inspecionadas. Há todo um mundo maravilhoso que rodeia os veículos de duas rodas, quem anda de moto é porque realmente gosta e a moto é algo de espetacular na vida do seu proprietário. 
Por isso, há pessoas que gostam de modificar esta e aquela peça e, às vezes, não o fazem com o melhor critério. Nessa lógica, a inspeção faz sentido. Se bem que, na moto, a inspeção ganha uma dimensão diferente do automóvel, porque quem anda nela sabe perfeitamente os riscos que corre.
Mas, no fundo, faz sentido uniformizar e que todos cuidemos do nosso veículo com razoabilidade e inteligência.


Como é que foi desafiar o universo masculino, competindo em moto nas mais difíceis competições de todo-o-terreno, disputadas em diversos continentes?

Não foi fácil. Praticar uma modalidade que é maioritariamente masculina tem pontos positivos e tem pontos negativos. Tenho vivido partilhando do melhor que há dos dois lados. 
O facto de não haver muitas mulheres no desporto automóvel faz com que tenha alguma visibilidade. Isso permitiu-me criar condições para praticar esta modalidade. 
Mas essa não é a única razão pela qual me tenho mantido. A verdade é que trabalho muito para conseguir correr e conquistar os patrocínios e provar aos meus patrocinadores que sou um bom investimento. 
Por outro lado, tem aquele lado negativo de as mulheres não serem levadas muito a sério ou de serem alvo de alguma dúvida. E isso aborrece-me, porque gostava muito de ser considerada um bom piloto mas, de facto, a tendência é sempre um bocadinho ao contrário: “se ela faz é porque afinal não é difícil, porque se fosse difícil ela não faziam, quem fazia eram só eles”. 
Torna-se um bocadinho ingrato. Trabalho imenso e esforço-me imenso para ter sucesso, mas é com essa realidade que vivo. As mulheres têm um mundo para conquistar e temos de ser muito inteligentes e razoáveis para o fazer. Há uma caminhada e eu estou a fazer a minha, fazendo votos para que outras mulheres também consigam ir por aí fora, vencendo as limitações e os obstáculos, porque a maior parte deles estão apenas na nossa cabeça.

“Praticar uma modalidade que é maioritariamente masculina tem pontos positivos e tem pontos negativos. Tenho vivido partilhando do melhor que há dos dois lados."


As questões mecânicas dos camiões no contexto de competição desportiva são uma determinante do sucesso?

Sem dúvida. Aliás, digo sempre que sou uma pequena parte. Dou a cara e as pessoas conhecem-me, mas tenho uma equipa que trabalha comigo. E trabalham todos muito, trabalham bem, de outra forma não conseguiria ter sucesso. 
Na competição todo o terreno temos a condução, que é um fator importante, temos a navegação que é outro não menos importante, porque se não tiver um bom navegador não consigo ter bons resultados. 
Tenho um trabalho de mecânica a fazer (tenho um mecânico que trabalha comigo e que tem de trabalhar com muita responsabilidade e qualidade) e tenho um veículo que se não tiver qualidade também não me permite fazer bem. 
Depois há todo um trabalho de logística, de organização, de coordenação e planeamento. Temos quatro ou cinco realidades em linha de conta para ter um bom resultado. 


Foi uma das primeiras mulheres do mundo a concluir o rali Paris-Dakar a conduzir um camião. Sente que pode dar algum contributo à segurança rodoviária?

Penso que sim, mas até agora ainda ninguém me pediu grandes contributos nessa área. Em competição temos que fazer uma condução segura, ao contrário daquilo que as pessoas pensam. Muitas vezes pensam que somos uns desmiolados, uns malucos, que andam por ali a acelerar. Não. Andamos realmente depressa mas, acima de tudo, fazemos uma condução segura.
 Treino-me e preparo-me. Tenho uma série de medidas protetoras, que o condutor no dia-a-dia não tem. Se eu não tiver uma condução segura nunca vou conseguir chegar ao fim das etapas, nunca vou conseguir chegar ao fim das provas. Logo, nunca vou conseguir ter bons resultados. 
Acima de tudo, temos de conduzir bem. E é conduzindo bem que temos bons resultados. As pessoas não são ensinadas a ter uma condução segura à chuva ou em determinadas circunstâncias e, portanto,  às vezes vão a conduzir o automóvel com os seus problemas do dia-a-dia na cabeça e esquecem-se que têm entre as mãos um volante e por baixo quatro rodas de que podem perder o controlo. 
Em Portugal não é habitual ir à competição procurar as pessoas que se especializam na condução e tirar partido dos seus conhecimentos para ajudar quem precisa de aprender mais qualquer coisa. Talvez com o tempo isso venha a acontecer.
“Treino-me e preparo-me. Tenho uma série de medidas protetoras, que o condutor no dia-a-dia não tem.”
Entrevista publicada na revista institucional da ANCIA, edição Outono de 2017