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Há tendência de aumento de acidentes e do número de feridos

Entrevistas
Os dados finais só estarão prontos em meados do ano, mas há já sinais que apontam para um retrocesso em termos do que tem sido a redução da sinistralidade mais grave. José Miguel Trigoso em entrevista
Autor Simone Graciano 
Data 11-04-2016 
José Miguel Trigoso, Presidente da Prevenção Rodoviária Portuguesa

Que leitura faz dos dados da sinistralidade em 2015? Que impacto na evolução do cenário nacional?

Os dados disponibilizados ainda não pemitem retirar conclusões aceitáveis, pois ainda só são conhecidos os dados gerais compatibilizados os mortos a 24 horas, e ainda sem conhecimento da evolução do tipo de vítimas, do local dos acidentes, do tipo de acidentes, etc.

 

De qualquer forma, uma coisa é certa – verifica-se que a tendência foi de aumento de acidentes (mais 4,8%) e do número de feridos graves e leves (cerca de 2,5% para ambos). Houve uma redução de 0,8% do número de mortos contabilizados a 24 horas, mas ainda não se pode assegurar qual a verdadeira evolução, pois no ano anterior tinha-se verificado um,a redução de 6,9% de mortos a 24 horas, e na realidade houve um aumento de 0,2% de mortos considerados a 30 dias, que é o prazo aceite internacionalmente. Conclusão – embora ainda não se possa fazer uma análise detalhada da evolução, os dados provisórios existentes é negativa, e exigem uma actuação muito mais eficaz.

 

Qual o contributo da segurança do veículo no cenário geral da sinistralidade automóvel em Portugal?

A contribuição do veículo na sinistralidade rodoviária é sempre reduzida face aos outros factores clássicos, nomeadamente no que respeita à ocorrência de acidentes.

 

No entanto, o veículo tem tido, ao longo das últimas décadas uma importância extraordinária da redução da gravidade das consequências dos acidentes, através do enorme aumento da segurança passiva que disponibiliza. Nos últimos 40 anos, entre 1975 e 2014, verificou-se uma redução de apenas 7,6% no número de acidentes com vítimas, mas o número de vítimas mortais decresceu 82,0%!!!

Todos os veículos autorizados a circular nas vias abertas ao trânsito público devem estar em condições de circular de forma a garantir a segurança de todos os utentes

Acha adequados os intervalos temporais das inspeções nas diversas categorias de veículos?

Acho que os intervalos temporais exigidos são globalmente corretos.

 

Qual é a verdadeira influência do perfil e do estado de conservação das vias?

É enorme a importância do traçado das vias, do seu piso, da sua sinalização, dos equipamentos de segurança e da sua conservação na ocorrência de acidentes. Para garantir a qualidade das vias, considero absolutamente indispensável a obrigatoriedade da realização de “Auditorias de Segurança Rodoviária (ASR)” aos projectos e de “Inspecções de Segurança Rodoviária (ISR)” às vias existentes.

 

Mas considero que tais ASR e ISR deverão obedecer a critérios definidos de forma rigorosa, efectuados por entidades verdadeiramente independentes do “dono da estrada” e do projectista, e responsabilizar civil e criminalmente quem as faz e quem decide aplicar ou não as suas recomendações. Tal deve ser feito tanto nas AE’s como nas vias urbanas, ou seja em todas as vias abertas ao trânsito público.

 

Dentro de meses, passa a ser obrigatória a inspeção a motos com mais de  250cc. Faz sentido que sejam apenas essas?

Não faz sentido absolutamente nenhum que sejam apenas essas. Não percebo de todo qual o critério que está subjacente a tal decisão.

 

Qual a posição da Prevenção Rodoviária Portuguesa sobre a Inspeção Periódica Obrigatória a tratores?

A PRP considera que todos os veículos autorizados a circular nas vias abertas ao trânsito público devem estar em condições de circular de forma a garantir a segurança de todos os utentes. Se se considera que tal é garantido através das inspecções periódicas obrigatórias, então devem ser obrigatórias para todos os veículos. O mesmo se deve aplicar aos veículos do Estado, incluindo os das Forças Armadas e das Forças de Segurança.


O que pensa sobre a qualidade da formação de novos condutores?

A PRP acha que esse é um ponto que deve ser alterado de forma importante, seguindo as mais recentes tendências verificadas a nível internacional e validadas pelos estudos realizados. Nomeadamente introduzindo a «Formação por etapas» ou «Graduated driving licensing», que passa por três fases antes da obtenção da licença – 1ª – fase de aprendizagem (em escola de condução e condução acompanhada com apoio de escola de condução); 2ª – fase intermédia (necessita de um teste/exame para aceder a esta fase) e 3ª – fase de início da condução independente condicionada (recomendado ter outro teste para ter acesso a esta fase).

 

O exame deve ser alterado de acordo com o programa, deve ser realizado por entidade idónia, que tenha capacidade técnica para o efeito e que seja independente das escolas de condução. Deve garantir que os novos condutores, após as diversdas fases de aprendizagem, estão aptos a conduzir em segurança integrados no fluxo normal de trânsito.

 

Se todos os utilizadores cumprissem escrupulosamente o Código da Estrada deixava de haver acidentes?

Infelizmente não deixava de haver acidentes, embora seguramente que haveria muito menos e de menor gravidade.

 

Os automóveis em utilização elétrica (puros ou «plug-in»), põem questões específicas em termos de condução. Justifica-se uma ação de sensibilização dos futuros condutores, envolvendo PRP e Marcas?

Claro que sim, não só por essa razão, mas também por causa da ausência de ruído, que consubstancia um risco acrescido para os peões. Aliás, tanto quanto julgo saber, esses veículos vão ser obrigados a fazer algum ruído por essa razão.

 

Entrevista publicada na revista institucional da ANCIA, edição Primavera de 2016